local_library Uma introdução honesta à Elfen Lied (+18)

Publicado por: Ciclista - Há: 3 semanas atrás
Categoria: Resenhas



      De antemão, deixo claro que embora o anime em questão seja relativamente antigo (2004), o mesmo aborda temas e nuâncias bem pesadas, tais como: gore (sangue, assasinato e afins), pedofilia, incesto, violência doméstica, nudez, entre outros. Por essa razão, rogo-lhe para que simplesmente não avançes com esta resenha caso ainda não tenhas alcançado a maioridade.

 

Gêneros

Ação, Terror, Psicológico, Sobrenatural, Drama, Romance, Seinen

 

Sinopse

A história começa com a fuga de Lucy, uma Diclonius poderosa, de uma ilha, um centro de pesquisas, fortemente protegido por gente armada, com uma instalação científica enorme. Na tentativa de impedi-la, um atirador acaba acertando seu capacete e a derruba no mar. Depois ela é encontrada por Kouta e sua prima, Yuka, sem roupas, sem memória alguma, com comportamento de uma criança pequena e a única coisa que conseguia falar era Nyuu. Depois ela acaba indo morar com Kouta, numa antiga pensão fechada, que ele havia alugado para morar enquanto estudava na universidade.

"Ligue-me se alguém lhe causar problemas... Eu vou matá-los por você." 


      Elfen Lied é bastante conhecido pelo espetáculo sangrento apresentando nos primeiros episódios, alguns o consideram até hoje uma masterpiece, outros preferem chamá-lo de apelativo ou super-estimado. A minha opinião, adianto, é que o anime tem o seu merecido sucesso, mas não pelos motivos certos.

 

      Nos primeiros dez minutos do anime, os quais representam o espetáculo em que eu havia dito, já lhe dão plena ciência de onde você está metendo, e isso por si só já é bem atraente para a parcela da comunidade que busca um chocante anime de terror, mas Elfen Lied é, ou pelo menos deveria ser, mais do que uma violência sem sentido, pois envolve dubitáveis pautas sociais sobre a natureza humana através de uma jornada emocional.

      A história retrata a evolução de uma raça chamada 'Diclonius', uma mutação de seres humanos que evoluiu com o intuito de exterminar a raça humana. Os Diclonius possuem características que os distinguem de forma superior aos seres humanos, sendo a mais notável um par de chifres em suas cabeças que os permitem controlar "vetores", uma espécie de braços invisíveis que saem da região da nuca, poderosos ao ponto de poderem parar uma bala sem complicações ou esforços.

 

      A princípio, porém, os Diclonius não representam uma ameaça real para a humanidade, pois todos eles, inclusive a prole, estão sendo secretamente regulados e estudados por uma certa organização poderosa. No entanto, a trama começa quando Lucy, uma das Diclonius, se liberta de seu aprisionamento e escapa pelo oceano. Ao amanhecer, Lucy acorda à beira duma praia, onde curiosamente perde a sua memória, dividindo sua personalidade em 'Lucy', o seu verdadeiro eu, e 'Nyuu', uma garota inocente e bondosa.


      O fato dos Diclonius evoluirem a cada geração nada mais é do que uma ruptela da lei da transmissão dos caracteres adquiridos de Lamarck, pois na série a tal organização secreta tenta desenvolver os sentidos e a resistência das cobaias através de testes cruéis, forçando-as a adaptaram-se à um meio artificial com o objetivo de potencializar uma espécie cada vez mais próxima da perfeição. Outro ponto a ser inicialmente questionado é o quanto devemos atribuir, enquanto sociedade, poderes e confiança ao Estado, porque se o 'Leviatã' possuir o monopólio das forças armadas somado a uma possível ingerência, assim como foi na série, quem seria capaz de (re)colocar o monstro dentro da jaula?

      Além disso, podemos comparar a ambígua personalidade de Lucy com conceitos do eletromagnetismo: de um lado temos uma garota meiga chamada Nyuu, a qual podemos chamar intuitivamente de pólo positivo, enquanto do outro há uma versão sombria e assassina da Lucy, o pólo negativo; por se tratar de opostos, a tendência natural desta polaridade é a atração, e quando finalmente se encontram (ideologicamente), isto é, quando há uma eletrização por contato, espera-se que ambas as personalidades se somem, criando dessa forma uma terceira personalidade, que nada mais é do que o montante das duas anteriores, representando a fase em que Lucy é capaz de decidir através da sensatez (equilíbrio estático), ou então há uma sobreposição de suas forças intrínsecas, fazendo que esta terceira personalidade seja influenciada por seu pólo mais forte em determinada situação.

 

      Para finalizar a minha sequência de " viagens " dentro do conteúdo do anime, ressalto a reflexão da natureza humana em apreender e/ou controlar tudo aquilo que desconhecemos como consequência do nosso medo instintivo. Este é, inclusive, o ponto antropológico mais importante da série. Temos exemplos análogos na história da humanidade, como a inquisição católica promovendo a caça às " bruxas "; ou a ideologia nazista considerando a comunidade judaica como raça inferior ao passo que, contraditoriamente, alegavam que os mesmos " controlovam tudo "; até mesmo o assassinato de um dos maiores expoentes do hip-hop brasileiro, Sabotage. Este tipo de crueldade é influenciado (mas não justificado) pelo medo daquilo que consideramos ameaça ou pelo preconceito ao diferente e tem como único objetivo a manutenção do status quo. Na série, ao mesmo tempo que há o medo dos Diclonius de fato extinguirem a humanidade, há também o interesse da organização em utilizá-los como força bélica, tornando-se mais poderosa através do poder coercitivo.


      Enfim, como analisado, Elfen Lied tem o potencial de nos fazer questionar diversos assuntos, e olha que até o momento eu não fui além do primeiro episódio, porque meu objetivo nessa resenha é introduzi-lo aos que nunca assistiram e trazer um debate ou uma releitura para os que já assistiram. Agora, porém, é o momento em que vou realmente começar a parte " honesta " dessa introdução, avaliando mais técnicamente o desenvolvimento do anime.

 

      Já afirmei algumas vezes que o entrecho de Elfen Lied possui um potencial enorme, mas eu ainda não disse se esse potencial foi bem aproveitado na prática... Bem, lamento dizê-los, mas a resposta é um pungente " não ". Há diversos momentos onde o anime realmente peca, e eu estou aqui para expor os mais ínclitos.

 

     Sem eufemismos: em geral o que mais me enfurece é o roteiro medíocre do anime, que talvez tenha sido o pior que eu vi em toda minha vida. Confesso que não sei quão verossímil o anime foi em relação ao material original, porque não o li, contudo caso alguns direcionamentos tenham sido igualmente reproduzidos, ainda assim mantenho a minha crítica quanto ao roteirista, que não teve bolas para alterar algumas sequências de eventos. Um exemplo disso é que em certo momento houve a necessidade dos protagonistas se encontrarem com o vilão Kakuzawa, e para isso pensou-se: " hmm, temos conosco uma garota incapaz de se comunicar, sem nenhum senso de etiqueta e que por vezes é consumida por surtos sociopatas, que tal a levarmos para uma aula na faculdade? ". Are you kidding me?

 

      Durante a obra diversas vezes nos encontramos com situações parecidas em que a staff não conseguiu interligar os pontos de forma natural, e o mais decepcionante é que parece que eles prefiriram focar a interação dos personagens do que o desenvolvimento da trama, já que a vilanagem do professor Kakuzawa, que é o cara que realmente justifica a origem dos Diclonius e a fuga inicial da Lucy, fora resumido em cerca de dois episódios, banalizando a principal engrenagem para o progresso da história. Em vez disso, por que não desperdiçar parte do orçamento e tempo de produção incluindo algumas cenas de puro fanservice, não é mesmo?

 

      A outra crítica que eu deixo aqui é o tamanho engessamento dos personagens. Com exceção de Lucy, todos os outros personagens não possuem características especiais que nos façam sentir simpatia, tanto em visual quanto em complexidade. Pegamos o soldado Bando como rápido exemplo, um vilão pouco relevante para a história o qual tentam-nos convencer de sua maldade fazendo-o desrespeitar regimentos policiais, bater em crianças, chutar cachorros e outros atos fúteis, quando na verdade a única coisa que me convenço é o quão patético e genérico é a construção dos personagens secundários.


      Elfen Lied tem suas falhas visíveis, mas seria injusto e tendencioso se eu as apontasse sem indicar os seus méritos também. O meu diferencial favorito de EL, tirando as dadas metáforas, é justamente a falta de pudor, hoje um trabalho de animação tenta ao máximo se abdicar de temas sombrios, sanguinolentos ou que simplesmente são considerados tabu, isso para poder conquistar um espaço na TV e atrair mais público, então algo que eu posso afirmar é que o anime não falha enquanto Terror Psicológico.

 

      Ao longo da série, você se verá torcendo por uma personagem corrompida pelos anseios malévolos, e eu aprecio essa capacidade do autor em contar histórias por uma perspectiva incomum. É também impossível não citar a trilha sonora totalmente cantada em latim, pois compete ao título de melhor opening de todos os tempos. Além disso, há diversas transições artísticas do cenário que é impossível não admirar-se, o designer de fundos era um dos únicos que realmente sabia o que estava fazendo ali.

      Em última análise, Elfen Lied não é o tipo de anime que você deveria assistir num belo domingo ensolarado e, apesar do meu criticismo, eu estranhamente o recomendaria a todos vocês para que tirem as suas respectivas conclusões. Embora antigo e imperfeito, esta é uma experiência que acredito que todos nós deveriamos passar pelo menos uma vez.


Para finalizar, quero reservar este espaço final para deixar minhas sinceras despedidas ao @NetoVidal25; podes estar fora agora, mas saiba que estás eternizado em nossos corações. Faça bons estudos, espero revê-lo um dia...

"Não somos todos monstros por dentro?"

 

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