local_library Review - Pingu in the City (2018)

Publicado por: Ciclista - Há: 6 dias atrás
Categoria: Resenhas



Gênero: Filosofia, Tecnociência, Transcendentalismo, Antropologia

Estúdio: Polygon Pictures

Diretor: Naomi Iwata

Episódios: 26 na primeira temporada, 26 na segunda e mais algumas centenas nas versões antigas

Lançado em: 1986 (versão cartoon) e 2017 (versão anime)

Status: completo

 

Sinopse

Pingu e sua família se mudam de sua pequena aldeia para a grande cidade; em que há muitas pessoas a viver com muitas ocupações diferentes. O Pingu, sempre curioso, tenta se juntar a eles em seus empregos, mas seu lado malicioso consegue o melhor dele e ele acaba desordenando.


Ahh... como eu esperei para escrever essa resenha ^^

 

      Bem, esse meu atraso foi devido a minha incapacidade cognitiva de absorver todo o conteúdo desta obra-prima. Com muito tempo de estudo e consumo lírico, tenho o orgulho pessoal de dizer que alcancei o meu apogeu intelectual e, portanto, tenho bagagem para compreender cerca de 4% de Pingu in the City, então quero compartilhar um pouco da minha singela experiência com vocês.

 

      Nesta resenha, involutariamente desempenharei a função de separar os homens dos meninos, as mulheres das meninas, etc. Enfim, só continue scrollando a partir daqui se você tiver uma mente aberta para o compartilhamento de ideias, pois não quero ter que dialogar com trolls, ainda mais se tratando do meu anime favorito.


      Tenho refletido enquanto escrevia: por onde devo começar? será que há pessoas que ainda não conhecem o eminente Pingu? Ou será que posso ir direto ao ponto? Infiro a possiblidade do público mais jovem não ter tido contato com a obra; embora haja versões recentes dela, é possível que os canais de televisão não transmitam mais este tipo de conteúdo, digo isso como alguém que não assiste TV há anos. Eu espero de coração que alguma versão de Pingu ainda esteja em circulação nas telinhas, pois era uma das únicas coisas que ainda prestavam. Ademais, conclui que serei receptivo a todos (exceto aos trolls), então darei um breve compêndio da obra.

 

      Em 1986, o programa " infantil " chamado Pingu começou em seu país natal, a Suíça. A série inicialmente retratava uma família de pinguins que vivia isolada no Pólo Sul e rapidamente se tornou um sucesso mundial, já que a sua forma única e divertida de contar histórias era capaz de divertir o público de todas as idades. Além disso, uma das marcas da série é o uso de um dialeto exclusivo, uma espécie de "Pinguinês", o que torna toda a obra universalmente compreensível, pois para captar a mensagem não é necessário entender suas falas, apenas interpretar o desenho através das ações e comportamentos dos personagens.

 

      Havia dois países em particular onde Pingu tornou-se um grande sucesso: o Japão e o Reino Unido. Tendo isso em vista, em 2004 a empresa britânica HIT Entertainment adquiriu os direitos da série por US$15,9 milhões e produziu mais duas temporadas de 26 episódios cada. Ambas as temporadas foram um sucesso similar à sua versão primordial. Caso pesquises 'Pingu' em algum site internacional de vendas, perceberás que a majoritária quantidade de produtos exclusivos da série como brinquedos, livros e jogos são produzidas no Japão devido à sua glória na região. Logo, não é necessário ser nenhum gênio do marketing para deduzir que alguma empresa japonesa desejasse investir na produção de novos episódios.

 

      Dito e feito, a partir de 2017 a Dandelion Animation Studio, junto com a Polygon Pictures passaram a produzir novas temporadas para a franquia, tornando Pingu finalmente um anime. Nessa renovação, agora Pingu é totalmente animado por computador (CGI) e o seu cenário clássico em algum ponto deserto do Pólo Sul, tornou-se uma cidade movimentada. Apesar de substituir o contexto original da série, essas mudanças permitem um maior leque de possibilidades para novas aventuras e sátiras do curioso pinguim que conquistou o mundo.


      Como outrora dito, atualmente Pingu não vive num ponto aleatório do Pólo Sul, mas sim numa cidade movimentada, houve essa troca provavelmente para efeitos de similaridade com a cidade de Tóquio. Assim como nos seriados, o enredo é independente e não há uma sequência cronológica, isto é, os episódios não estão diretamente relacionados, portanto podes assistir na ordem que prefirires.

 

      Mesmo sendo uma cidade movimentada, ela não é tão grande e sua população é limitada, por essa razão ainda não há escolas para que Pingu, como jovem que é, tenha uma educação adequada. Isso não quer dizer, no fim das contas, que Pingu não adquira aprendizados, pois todos os pinguins trabalhadores da cidade aceitam Pingu como aprendiz ou ajudante de bom grado, com isso Pingu além de ter um pleno conhecimento do espaço onde vive, também acumula ampla experiência de todas as profissões até então existentes. Não é assim que as coisas deveriam ser? Na vida real nós aprendemos muitas coisas na escola, mas a maioria delas são impraticáveis no nosso cotidiano, e o nosso cenário acaba por ser o oposto de Pingu, porque sabemos muito ao passo de que não conhecemos quase nada.

mitochondria is the powerhouse of the cell

 

      O fato de Pingu ser prestativo com a sua comunidade é um dos pontos positivos da adaptação para anime, pois em suas versões mais antigas por vezes Pingu era desobediente com seus pais, e isso poderia transmitir uma má influência às crianças que o assistiam, tendo em vista a tendência infantil de se espelhar em seus personagens favoritos.

      Pingu in the City e seus derivados é taxado pela maioria das fontes como gênero infantil, mas isso em hipótese alguma significa que o anime é destinado às crianças, apenas que este é o seu maior público. Pode parecer confuso ou contraditório agora, mas me aprofundarei mais sobre isso depois de avaliar todos os outros aspectos da obra. Enfim, a história e seu enredo é 10/10, pois os novos produtores demonstraram, felizmente, ter familiaridade com o material original; sua essência permanece intacta.


      Ridículo, esdrúxulo, bizarro, irregular, anômalo, feio, fraco, desagradável, podre, infrutífero, pobre, escasso, defeituoso, péssimo, horrível, insatisfatório, insuficiente, grotesco, vulgar, vergonhoso, sórdido, desprezível. Sim, estou falando da animação de Kimetsu no Yaiba quando comparado à exímia animação de Pingu in the City. Nem mesmo as animações-chave de batalha do personagem Levi de SNK é comparável aos quadros por segundo perfeitamente distribuídos de quando Pingu dá um ligeiro giro e, num passe de mágica, está adequadamente uniformizado para o seu trabalho, muitas vezes nem o próprio personagem é capaz de acompanhar a animação e acaba errando a posição do seu chapéu.

      Vou além: o que foi dito não se aplica apenas à versão anime, os criadores e antigos produtores da obra também merecem o seu devido reconhecimento, pois tinham o árduo trabalho de animar e modelar os personagens com plasticina e argila, e isso é incrível. Sem dúvidas, nota 10 para animação, visual, gráficos e seus derivados. Fico contente de finalmente poder acompanhar um anime capaz de superar a qualidade de produção de estúdios como a KyoAni.

 


      Todos os personagens relevantes da série possuem um nome, mas estes sequer precisam ser anunciados, já que você pode deduzir o papel de cada um através do dom da interpretação dado por Deus e posto em prática pelo anime. Os únicos que você deveria saber o nome, penso eu, é o o próprio protagonista Pingu e seu melhor amigo, Robby, cujo é uma foca.

 

      Há alguns personagens novos, no geral trabalhadores, mas o elenco permanece consistente, isto é, muitos 'bicos' antigos ainda fazem parte da turma. Os meu personagens favoritos, confesso, são Robby, que é a encarcanação do 'lulz', pois tudo o que essa foca faz é se divertir através da arte de atrapalhar os outros; e o Vovô Inventor um idoso que faz da sua casa um instituto de pesquisa, este velho é genialmente extemporâneo, embora seja caduco e não consiga passar seu conhecimento para a nova geração.

      Todas as trilhas e efeitos sonoros são simples, contudo contribuem adequadamente para a interação dos personagens, não há nenhuma queixa por aqui. A ending e a opening são curtas e alegres, como de praste do histórico da série. Enfim, se eu fosse resumir os personagens da série em uma palavra, seria 'cativante'. A ending é 10/10 e a opening é 9/10 - eu só não dei nota máxima para a opening porque seria axiomaticamente injusto dar a mesma nota dessas duas lendárias openings:

 

PI PI PI PI PI PI PI PI Pingu Pingu!

 

Attack on Nootitan


      A partir de agora ir-nos-emos refletir: se foi dada notas tão altas para os fundamentos da obra, por que Pingu in the City não possui todo o sucesso que merece? Deixar-vos-ei cientes disto por intermédio da minha resenha; a única resposta cabível para essa pergunta é que o ser humano em geral ainda não está cognitivamente preparado para tamanha complexa e genialidade. Sendo modesta, estou longe de ser também, mas já dizia Sócrates: sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.

 

      Também tenho o dever moral de informá-los que nem sempre foi assim, já houve uma época onde nossa comunidade estava dando os primeiros passos para a sabedoria, mas é desconcertante dizer que isto foi por um breve período e quantitativamente medíocre.

Tempos de ouro, sem dúvidas.

 

      Sendo otimista, não acho que nós demos um passo para trás no nosso percurso intelectual, apenas temos que aceitar que a internet está repleta de trolls e hereges que vão para a página do anime apenas para dar nota 0. Por sorte, sei que os meus leitores não deixarão que estas criançolas tolas e inseguras derrubem os nossos sonhos, por mais utópicos que eles sejam.

 

      Falando em crianças, por que achas que a franquia Pingu tem êxito com as mesmas, além de ser classificado como infantil? Não é a toa, tampouco injusto, isso acontece porque, segundo Rousseau, a criança nasce bom, com uma mente capaz de absorver o mundo e a sociedade em sua volta. No entanto, quando crescemos temos a fundamental tendência de ser intoxicado com vícios, semelhante aos poluentes que a esponja absorve. Em outras palavras, você não precisa ser um gênio, ter um QI alto e nem nada do tipo para desfrutar de Pingu, apenas uma mente aberta para absorver boas ideias - e é por isso que quando somos crianças achamos Pingu incrível, e quando crescemos perdemos o interesse.

 

      Deixarei-vos como exemplares alguns dos conteúdos presentes na série que são mais destinados ao público mais maduro do que às crianças. Bem, terão spoilers, mas farei questão de explicar apenas os episódios menos relevantes da série para não estragar os seus prazeres (pulem 3 parágrafos caso prefiram uma experiência pura).

 

• O episódio 5 de PitC (2018), embora seja um filler, é nada mais nada menos do que uma adaptação da alegoria da caverna de Platão, uma das estórias filósoficas mais fúnebres, retratrada no livro A República. No episódio, Pingu ao lado de seus dois amigos decidem visitar uma caverna para encontrar um monstro estampado num livro. Ao adentrar na caverna, o trio se perde e são constantemente amedrontados por sons e sombras refletidas, acreditando ser do monstro. Estas imagens na verdade são produzidas pela foca Robby, analogamente aos conhecimentos e ideias impostos da alegoria. Quando se afrontam com a foca, há uma sensação de alívio, pois saem da área da ignorância para adentrar à área do entendimento, mesmo assim estes se encontram perdidos e aprisionados. A solução para esse dilema é adotar a irracionalidade como refúgio, e esta solução é praticada pela própria foca, puxando todos os pinguins sem qualquer direcionamento ou rumo, ou seja, aceitando a própria ignorância. Quando finalmente abandonam a caverna, percebem que o monstro sempre esteve convosco - este monstro, em minha interpretação, representa o saber ou a verdade, que é a real essência de toda a filosofia.

 

• Novamente um conteúdo filler, o episódio 11 da primeira temporada é uma analogia ao conceito de propriedade de John Locke, retratado na obra Dois tratados sobre o governo civil. Influenciado pelos ideais iluministas, Locke afirmava a existência de direitos naturais que antecedem qualquer Estado Civil. No episódio, Robby e Pingu sem querer roubam os sólidos de gelo para construir um iglu, isso acontece, segundo Locke, porque não há um poder legislativo para demarcar, documentar ou limitar até onde extende-se a propriedade privada do indivíduo roubado. No fim das contas, a ausência de um poder supremo fez com que nem o indivíduo roubado nem Pingu conseguissem realizar os seus respectivos objetivos, pois o ato de conceder algo involuntariamente não cria uma relação de igualdade, mas sim de superiodade de um sobre o outro. A propósito, Locke enfatizava que, embora seja raro, é sim possível um estado de natureza estável, vide exemplo a civilização Inca.

• O episódio 18 da primeira temporada, dessa vez canônico, é uma clara referência ao primeiro filosófo monista Tales de Mileto, o qual determinava que o princípio é a água. Tales observou, por exemplo, que a água é algo fundamental para a vida, nosso corpo é composto dela, nenhum ser vivo pode viver sem ela e, quando morremos, nossos corpos secam. No episódio, o carpinteiro e Pingu tentam consertar o vazamento de água dos encanamentos, mas quando 'terminam', percebem-se incapazes de impedir que a água se exponencie, isso tudo é uma metáfora para dizer que enquanto a vida existir, a água será onipresente. Quando finalmente desistem, a água brota formosamente num fóssil de baleia, indicando, segundo contestações de Mileto no Rio Nilo, a origem da vida, pois as primeiras vidas de fato foram marinhas.

 

      Sem contar que há outras inúmeras refêrencias na série, como Slipknot (S2E14), Revolução Russa (S2E9) e Beethoven (S2E26), mas o objetivo da minha resenha não é destrinchar todos os episódios, apenas demonstrar o potencial da série. Gosto muito também da temática de perscrutar os sonhos de Pingu, explorado principalmente no episódio 16 da primeira temporada.

 

Noots on Ice

 

      Enfim, por se tratar de um remake, é fácil perceber que a maioria de seu público é composto de fãs pré-estabelecidos, já que a questão nostálgica está envolvida, e talvez seja difícil ser convidativo para novos fãs, mas assim lhos digo: Pingu não pode ser avaliado como um anime bom ou ruim, mas sim diferente. Pingu é, sem dúvidas, um original, uma experiência única. Ele não precisa ser apelativo colocando homens semi-nus ou garotas de saia curta para atrair adolescentes hormonais (leitores da minha última resenha saberão do que estou falando), é apenas o cotidiano divertido de um pinguim muito clamado mundo afora. Uma obra-prima emocional que não me arrependo de ter assistido, já faz tempo que algo tão criativo e refrescante chegou ao mundo dos animes.

 

      Depois de reler minha resenha, percebi que taaalvez eu tenha me empolgado um pouco. Prometo fazer resenhas menores nas próximas vezes. Quero deixar agradecimentos especiais à @TachibanaMei, @Ero e @Reydux, que foram os responsáveis por encontrar os episódios que antes faltavam (sério, foi bem díficil encontrar a segunda temporada completa).

 

Já sabem o que devem comentar, certo?

 

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