local_library Resenha do mangá de Oyasumi Punpun - Uma jornada incrivel de amadurecimento

Publicado por: gianis - Há: 4 semanas atrás
Categoria: Resenhas



 

Aviso: Não recomendo este mangá para pessoas que possuem algum distúrbio mental ou que estão muito tristes no momento. Irão ter pequenos spoilers que não vão estragar sua experiencia, apesar que vou falar do final da obra que é a melhor parte, mas alertarei sobre isso.

 

Introdução 

 

Autor: Inio Asano

Publicação: 15 de março de 2008 e finalizado em 2 de novembro de 2013 

Serializado: Big Comic Spirits 

Publicado aqui no Brasil pela editora JBC. 

 

 

Sinopse

 

Punpun Onodera é um garoto normal de 11 anos e vive no Japão. Desesperadamente idealista e romântico, Punpun começa a ver sua vida dar uma volta sutil, embora surpreendente ao adulto quando conhece a nova garota de sua classe, Aiko Tanaka. É então que o garoto quieto aprende o quão inconstante é a manutenção de um relacionamento e as superadas dificuldades de transição de uma infância ingênua para uma idade adulta complicada. Quando seu pai agride sua mãe uma noite, Punpun percebe outra coisa: aqueles a quem ele admirava não eram tão impressionantes quanto ele pensava. 

À medida que seus problemas aumentam, o comportamento outrora tímido de Punpun se transforma em reclusão voluntária. Em vez de curá-lo de seus problemas e emoções conflitantes, isso apenas os intensifica, enviando-o pelo caminho sombrio da maturidade nesta saga sombria de amadurecimento. 

 

 


 

Narrativa e Personagens

 

 

Sua apresentação é um tanto chamativa por apresentar um protagonista com forma de uma ave( mais pra frente irei explicar sobre essa forma dentro de varias), alem dele toda sua família possui essa forma curiosa. Apesar disso a sua narrativa foca no garoto tímido de 11 anos chamado Punpun, que está em sua fase de puberdade, ele assim como outros garotos da idade dele tem seus gostos pessoais, sonhos e claro seus problemas. Punpun conhece uma menina chamado de Aiko e acaba se apaixonando por ela e isso faz com que ele questione seus pensamentos, suas vontades, até mesmo as reações do seu corpo. O ponto que a obra deixa de ser um slice of life tranquilo e começa a utilizar o drama psicológico é quando a mãe de Punpun é agredida pelo pai dele, assim a história começa apresentar uma jornada realista de amadurecimento do protagonista com excelente aprofundamento dos personagens que ele relaciona.
 
O ritmo do mangá é lento, mas ele não enrola em seus atos, seus diálogos sempre são profundos e objetivos dentro da jornada de Punpun, cada cena contribui para o desenvolvimento dos personagens, mesmo nas cenas em que não fazem sentido nenhum para o enredo. No geral a leitura ela é sempre estimulante mesmo com pacing lento, ao decorrer entre os capítulos a imersão cada vez mais cresce quando sentimos empatia pelos personagens.
 
Os personagens são possivelmente o melhor aspecto do mangá, todos eles são interessantes, realistas, bem humanizados, coerentes e bem construídos dentro do mundo, com conflitos e consequências significativas para cada um deles. Começando pelo nosso protagonista Punpun Onodera, é um protagonista que está em constante evolução durante sua jornada, mesmo sendo um personagem que raramente fala, seus monólogos representados como um quadro preto com apenas falas trazem um peso maior na obra, para leitores de mangás que já consumiram outras obras do Inio Asano é algo bem comum que ele utiliza, mas em Punpun fez mais sentido para o tipo de personagem alem que a forma como ele faz isso no mangá é mais impactante, detalhada e absorvida melhor. Punpun tem um dos melhores desenvolvimentos de personagens que já presenciei em uma obra, graças a seu ritmo lento do mangá faz com que podemos notar sua mudança de personalidade em cada fase da vida de Punpun de forma orgânica e realista.
 

 
Transformações
 
 
Porque Punpun parece uma ave e a família dele? É uma das primeiras duvidas corriqueiras que os leitores presenciam dentro da obra, e não, não é algo simplesmente aleatório, faz todo sentido narrativo. A forma de ave é algo totalmente subjetiva de Punpun, ele enxerga ele e a família dele como algo diferente, estranho, por motivos pessoais como problemas familiares e o começo da puberdade dele. Por mais que seja algo comum, Punpun se questiona a todo momento sobre seus problemas dentro da vida fosse algo não natural, o porque da vida não ser do jeito que ele quer, ter uma família normal e não passar por problemas psicológicos e fisiológicos. Com os anos passando sua forma vai mudando, ainda mais em relação aos grandes acontecimentos da vida dele. Tem algumas pequenas transformações como ele ficar com uma cara sorridente todo o tempo é representado pelo seu estado altamente melancólico, e as vezes quando o traco do protagonista começa ficar mais grosso representa a raiva que ele está no momento.
 
As mais importantes quando ele chega na adolescência e ele se encontra no fundo da depressão e a cabeça dele toma a forma de um triangulo vazio com um pequeno sorriso disfarçado quando ele se relaciona com as pessoas. No começo da fase adulta ele muda totalmente sua personalidade o tornando quase irreconhecível, assim a sua cabeca fica comprida com vários olhos representando inúmeras personalidades que ele tem no momento, ele não possui mais uma identidade propiá. A ultima forma dele é na fase adulta quando acontece um desastre e Punpun se culpa por isso e surgi a forma de dois chifres na cabeça dele parecendo uma forma demoníaca.
 
Sinto que uma das melhores escolhas para o brilho de Punpun é colocar varias imperfeições para o personagem de forma bem feita sem que soe maniqueísta. Ele é teimoso, extremamente egoísta, ingenuo e principalmente imaturo, mas no fundo o Punpun é uma boa pessoa, ainda mais se compararmos com os outros personagens dentro da obra.
  
 A jornada de Punpun para se tornar adulto é difícil, cheia de problemas familiares, problemas românticos, sexo, álcool, depressão, empregos diferentes etc. Oyasumi Punpun não é uma história feliz, e Punpun nunca chega a um capítulo sem ficar triste, questionar a si mesmo ou tomar uma decisão ruim em algum momento (além dos capítulos em que ele não está). Ele tem muitas falhas e, à medida que cresce, começa a perceber cada vez mais. Punpun é o tipo de pessoa (como costuma ser dito) que está sempre olhando para o passado e tem dificuldade em olhar para o futuro. Com seu tipo de vida deprimente, olhar para o passado não é a coisa mais agradável a se fazer. Ele tem muitos arrependimentos e coisas que gostaria de poder fazer de maneira diferente se tivesse a chance. À medida que a história avança, ele se afasta cada vez mais de como costumava ser uma criança alegre que sonhava em se tornar um cientista no espaço. Muitos personagens falam sobre como ele é muito gentil e muitas vezes machuca as pessoas por causa de sua gentileza e com a facilidade que ele se desculpa.
 
 
Um dos personagens mais importantes na obra é o tio de Punpun, Yuuichi Onodera, a pseudo voz da razão no mangá, desempregado morando na casa de Punpun ele dá muitos conselhos a ele, é praticamente um mentor para o Punpun já que o pai dele é ausente. O arco dele é incrível, todo seu jeito pessimista e frio com os assuntos da vida são justificáveis através do seu flashback. Suas péssimas experiencias amorosas, empregos que não deram certo, tudo isso trouxe uma grande consequência para ele, acabou ficando extremamente anti-social, depressivo e muito egoísta, lembra muito o Punpun. Com decorrer nos capítulos focado nele ele conhece uma outra garota que ele vai conhecendo ela e começa a melhorar psicologicamente.
 
Quando criança, o tio de Punpun lhe ensinou que, se ele dissesse uma certa frase, Deus apareceria para ele e o ajudaria em seu tempo de necessidade. Inio descreve Deus como um mau amigo imaginário que parece um negro com um afro e geralmente dá a Punpun maus conselhos que são como um "pior cenário para se fazer" em vez de ajuda real. Vale ressaltar que a pouca comédia que a obra possui é baseado em humor negro, mesmo utilizando de seus temas pesados ele sabe fazer a piada muito bem em certos momentos, e muitos desses momentos desse humor negro é utilizado por este deus.
 
A grande paixão de Punpun, Aiko, é uma das personagens mais interessantes na obra. Durante sua vida escolar junto com Punpun ela era aquela garota estereotipada boazinha com todos e uma das mais populares por ser muito bonita. O grande destaque inicial dela é quando ela interage a primeira vez com nosso protagonista dizendo que queria fugir da cidade, e logo Punpun se confessa a ela dizendo seus sonhos e que iria proteger ela, isso afetou muita a Aiko. O outro destaque é quando descobrimos como é a família dela quando a mãe dela tenta vender produtos duvidosos dizendo que era divino para o tio do Punpun, e Punpun presencia a cena e vê que a Aiko está junto com a mãe dela, Aiko fica extremamente envergonhada e distancia o relacionamento com Punpun, e ele não consegue manter este relacionamento até se separarem um do outro. Mais para frente vemos mais aprofundado como é a relação da família da Aiko quando eles se reencontram e faz mais sentido ainda no começo ela dizendo para o Punpun que quer fugir da cidade.
 
 
Outro foco durante a história é dos personagens Seki e Shimuzu, eles estudaram com Punpun e a Aiko na mesma classe que presenciamos alguns acontecimentos e descobrimos mais da sua história e personalidade. Seki sempre foi um delinquente que perdeu seus pais cedo e mora com um tio que não liga pra ele, e continua se metendo cada vez mais em problemas durante a vida adulta buscando uma motivação de vida, ele constantemente troca de emprego, tentando ganhar dinheiro fácil para se sustentar. Shimizu sempre foi ingênuo e um tanto infantil, durante sua infância ele podia ver o "deus do cocô" de uma maneira semelhante à maneira como Punpun pode ver Deus (menos o conselho horrível que Punpun recebe), isso era como um amigo imaginário dele que ele criou por se sentir sozinho e inseguro em suas decisões o tempo todo. Quando chega a vida adulta ele tenta se tornar mais independente de Seki, buscando sua motivação durante a jornada tentando esquecer esse amigo imaginário. Eu realmente gosto da história deles e acho que eles são dois dos melhores personagens deste mangá. O relacionamento deles é como um vínculo entre dois verdadeiros bons amigos de infância e é muito crível.
 
A mãe de Punpun, Punpuyama, é um caso complicado, ela nunca teve uma relação boa com a propiá família, sempre brigando com o pai e dando bronca ao Punpun. Punpunyama diferentemente do filho que negligencia seus sentimentos, sempre demonstrou o que estava sentindo, e muitas vezes dramatizava suas ações para não se sentir só, afinal ela é a personagem mais carente da obra, e ao longo do tempo do seu arco em que desenvolve ela vemos mais da sua personalidade, que não era aquela apenas mãe desligada para a família e extremamente egoísta, e sim sincera e caridosa.
 
 
Uma personagem fundamental na história que mudou muito o Punpun é Sachi, ela é uma das personagens mais bem aprofundadas e humanizadas depois do Punpun e o tio dele, é simplesmente incrível o relacionamento dela com Punpun. O relacionamento deles começa quando eles se reencontram após o Punpun decidir alugar uma casa depois de certos acontecimentos que abalaram muito o psicológico dele, mas quando ele volta a trabalhar e encontra de volta a Sachi no bar tudo muda. Sachi é simpática e bem extrovertida, muitas vezes por isso ela acaba sendo muito insensível, e claro o aspecto que mais atrapalha ela, o egoismo, durante a sua jornada com Punpun percebemos o abuso do egoismo dela para cumprir seus objetivos, como desejar ser uma mangaká de sucesso. Punpun ajuda ela nesta jornada fazendo o roteiro e a Sachi desenhando, porem esse trabalho vai desgastando os dois, alem de que Punpun não possui habilidades para criar uma boa história e atrapalha ela, assim quebrando o clima entre eles.

 

 


 

Arte

 

 

A arte de Oyasumi Punpun é extremamente detalhada, toda sua ambientação é foto realista trabalhada com muito cuidado pra apresentar sua ambientação do Japão de forma mais realista possível. O design de personagens são muito variados, desde as roupas, cabelos, o detalhamento do rosto e o corpo e a forma como Inio coloca os personagens no ambiente fazem que não destoem do cenário, você se sente imerso dentro das cenas. A maneira como o personagem principal e sua família são retratados como aves é maravilhosamente único, dá a ele uma inocência que não poderia ser retratada de nenhuma outra maneira, ainda mais com as transformações de Punpun durante suas fases de vida durante sua jornada.
 
 

 
Spoilers
 
 
A reta final de Punpun é o ápice da obra, todo seu pacing mais calmo durante seus 5 volumes se intensifica nos seus dois últimos volumes. Após a morte da mãe da Aiko, Punpun resolve fugir da cidade junto com a Aiko e assim começa a criar um clima tenso durante a viagem pela culpa de Punpun ter matado a mãe dela. Durante a viagem as coisas começam a ficar muito estranhas, a relação deles que já não era boa começa a ficar pior ao ponto do Punpun abusar dela, agredir estranhos, e cada vez mais vai perdendo a sanidade pela auto culpa da morte da mãe da Aiko mesmo que ele tenha se defendido contra ela. No final dessa longa viagem Punpun descobre quem deu o golpe final foi a Aiko na propiá mãe, ele já tinha perdido a sanidade quando foi se defender e acabou negando a propiá realidade em que a filha mata a propiá mãe. Com essa culpa da consciência a Aiko decidi se matar e Punpun observe tudo isso, o interessante que a obra deixa claro que ela se matou, mas Inio faz com que isso seja algo interpretativo, que Punpun poderia ter matado a Aiko para ela não sofrer mais o que tinha que sofrer, ainda mais o jeito que ela está pendurado na corda é meio duvidoso.
 
No final Punpun volta pra cidade em que ele vive totalmente sem esperanças alguma de recomeçar a sua vida e decide se matar em um beco, mas a Sachi que estava separada dele há mais de dois anos queria rever Punpun e já estava procurando ele há muito tempo, desde que ele tinha saído pra viajar com a Aiko pós a tragédia. No final das contas Sachi acaba achando o Punpun no beco e interrompe o Punpun de se matar. Quando Punpun sai do hospital pelas suas feridas durante a viagem e a tentativa de se matar, temos um time skipp, e durante este time skipp mostra um dos melhores amigos do Punpun na escola, Chiaki, que acaba indo em uma festa de reencontro dos amigos da escola e percebe que está faltando alguém, que é o Punpun. No fim do mangá Punpun se encontra com ele e temos uma pequena conversa entre eles. No final quando Chiaki vai embora e dá adeus a Punpun, podemos ver a cara do Punpun chorando. Inio descreve que o pior final do Punpun possível era ele estar vivo, após todas suas experiencias traumáticas da vida, a melhor saída era o suicídio para ele, afinal viver para ele era só sofrimento, morrer era muito mais fácil, mas este final com o choro de Punpun é um tanto que interpretativo, pois o choro dele pode representar que ele está feliz de poder recomeçar a vida, e outra é que ele não aguenta mais viver. Eu acredito que não tem um "sim" ou "não" para esse final, o final para cada leitor vai ser diferente dentro da experiencia desta incrível jornada.
 
 

 
Conclusão
 
 
Oyasumi Punpun é um mangá que todos nós deveríamos ler, é muito fácil nos encontrarmos em algum canto dessa obra, ainda mais quando nos encontramos em situações parecidas que já presenciamos na vida, afinal a obra é extremamente realista e crua. São tantas lições de vida de cada personagem dentro da história abordando temas psicológicos tão humanizados como depressão, suicídio, abuso, auto destruição que é de se impressionar que podemos absorver tudo isso nesses 148 capítulos. Provavelmente um dos melhores desenvolvimento de personagens que já vi, principalmente do Punpun que é um personagem que é fácil de se relacionar, não só pelo seu design carismático, mais por toda essas fases que ele passa na vida que são feitas de maneiras tão coerentes e orgânicas em situações extremamente realistas, como conseguir um emprego, achar um amor, um propósito de vida, novos amigos, se sustentar, tudo isso que ele passa é algo que ele precisa para amadurecer, e a forma como ele vai amadurecendo dentro dessa jornada é dolorosa e desesperançosa, mas ao mesmo tempo é benéfica e valiosa, assim como a vida que é cheio de vitórias e derrotas. E o mais importante temos que aprender com essas derrotas, mesmo que seja da pior maneira possível como foi a experiencia de Punpun.
 
Este mangá é recomendado pela Equipe Dream Animes, não é atoa que muitos chamam de obra-prima, e em muitos sites sempre consegue rankear no top 10. Com toda certeza é a melhor obra do Inio Asano e sem duvidas nenhuma foi minha melhor experiência com mangá.
 
Comentem o que acharam da resenha. E caso tenham lido o mangá comentem o que acharam!
 
 

person Sobre o Autor

"The only thing humans are equal in is death"

comment Carregando...